O Observador e o problema intelectual da “cagadeira de género”

 

Eu já me referi à fraca qualidade intelectual dos colaboradores do Observador, salvo honrosas excepções. Eis um exemplo do que eu quis dizer (ver ficheiro PDF). Perante o absurdo (via), é muito difícil fazer uma análise; mas vamos começar por esta notícia:

“The speed with which the transgender agenda is moving may end up making the same-sex marriage debate look slow and deliberative by comparison. And now Scholastic, the children’s publisher that specializes in distributing and selling books through schools, is poised to bring the issue to a middle school classroom near you. The medium is George, the story of an eight year old boy named George who desperately wants to be considered a girl.”

Scholastic Publishing Novel on Transgender Eight-Year-Old By Self-Described ‘Fat Queer Activist’

Começam a aparecer livros para educar “crianças transgéneros” de 6, 7 ou 8 anos de idade.

Esta ideia vem da Revolução Francesa (Helvetius, Condorcet) segundo a qual o ser humano pode ser totalmente formatado através da educação. O determinismo congénito em relação ao ser humano (“o gay já nasce assim”) é apenas uma ferramenta de luta ideológica, porque o lóbi político gayzista sabe perfeitamente que “o gay não nasce assim”. Pelo contrário, na sequência dos ideólogos da Revolução Francesa, o ser humano é visto como uma “tábua rasa que não nasce assim”, e o tipo de educação determina totalmente o seu futuro. A premissa é behaviourista (ver behaviourismo): o ser humano pode ser adestrado como qualquer animal.

out of the closetJames Mill seguiu à risca a ideia de Helvetius na educação do seu filho Stuart Mill; e no fim da sua vida, Stuart Mill escreveu que o seu pai estava errado: a educação é apenas um dos muitos factores que orientam o ser humano, por um lado, e por outro lado não é possível através da educação erradicar os fundamentos da Natureza Humana.

Se não há diferença intelectual entre sanidade e insanidade, então o lunático que julga ser um ovo escalfado deve ser criticado por estar em minoria ou por o governo não concordar com ele.

Ou seja, criticar o lunático que julga ser um ovo escalfado torna-se ilegítimo, porque, em princípio, não se deve criticar as minorias, sejam quais forem. Isto resume o tipo de raciocínio dessa gente.

Mas se lhe acrescentarmos a ideia revolucionária de que a educação é tudo o que define o ser humano, forma-se a ideia segundo a qual educar alguém para pensar que é um ovo escalfado é absolutamente legítimo e são. Mas existe aqui um problema: não é possível afirmar que o lunático que pensa que é um ovo escalfado é saudável sem definir, em contraposição, o conceito de “insanidade” — porque sem uma diferença entre sanidade e insanidade, ninguém sabe o que é uma coisa e/ou outra.

“Kathleen Taylor, a neurologist at Oxford University, said that recent developments suggest that we will soon be able to treat religious fundamentalism and other forms of ideological beliefs potentially harmful to society as a form of mental illness.”

Religious fundamentalism could soon be treated as mental illness

A solução para o problema da diferença intelectual entre sanidade e insanidade, é considerar que o fundamentalismo religioso é uma doença mental.

Naturalmente que haveria que definir “fundamentalismo religioso”, mas o que se pretende é precisamente fugir a qualquer definição — porque uma das características dos ideólogos românticos que congeminaram a Revolução Francesa (por exemplo, Helvetius, Condorcet, Rousseau) é o horror às definições; tudo o que for racional é rejeitado pelo romantismo revolucionário que coloca a volição (a vontade) acima de qualquer outro atributo humano.

Portanto, “fundamentalista religiosa” pode ser aquela velha beata que vai à missa todos os dias; ela passará a ser uma doente mental. Ou pode ser um qualquer católico. Se se evita uma definição de “fundamentalismo religioso”, qualquer pessoa religiosa cai na categoria de “fundamentalista religiosa”.

Em contraponto, o fanchono que frequenta diariamente uma sauna gay é considerado absolutamente saudável em nome do “amor ao pecado” (porque é pecado não amar o pecado), assim como é saudável educar as crianças com livros que contam a estória de um menino de oito anos que é transgénero. Ser um lunático que pensa ser um ovo escalfado é saudável, e quem, como eu, faz análises racionais e preocupa-se com definições passa a ser “doente mental”.

A racionalidade passa ser “racionalmente” entendida como doença mental. Só se salva o ovo escalfado.

Para o lóbi político gayzista — e para a elite política em geral, que se aproveitam de uma nova tendência política totalitária — não se trata constatar diferenças entre seres humanos, porque é evidente que eu sou diferente do meu vizinho. Do que se trata é de afirmar o direito à diferença!, que é outra coisa, bem diferente.

O conceito de “direito à diferença” refuta-se a si mesmo — porque se os direitos do Homem fundamentam-se no princípio da igualdade natural de todos os seres humanos, o “direito à diferença” é a negação dessa igualdade natural fundamental. Enquanto que os românticos da Revolução Francesa apoiaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o novo tipo de romantismo politicamente correcto refuta-os em nome do “direito à diferença”.

Além de ser contraditória em termos, o conceito de “direito à diferença” é radicalmente nocivo à sociedade, na medida em que a reivindicação de direitos especiais e exclusivistas de determinados grupos sociais — por exemplo, o feminismo, ou o homossexualismo —, pode conduzir a um retrocesso do princípio de igualdade natural, não só entre os dois sexos mas também entre os seres humanos em geral.

O “direito à diferença” é um absurdo e um perigo iminente de retorno à barbárie. É é a barbárie do lunático que pensa que é um ovo escalfado que as elites políticas procuram, pensando que assim podem controlar melhor a sociedade. É um novo modelo de totalitarismo que surge.

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